Sonhos Lúcidos #2 – Volte Sempre

Sábado. 22:35 pm. Terceira noite na cidade.

Dois assassinatos no meu bairro. Deitada na cama, eu me pergunto outra vez o que me fez aceitar morar num lugar tão violento. Trabalho, claro.

– Você está bem?

Vejo meu marido, Carl, parado próximo à porta do quarto. Uma porta de madeira realmente velha, aliás.

Sacudo a cabeça e respondo que sim.

– É só essa mudança repentina – explico. – Ainda não entendi o porquê da gente ficar aqui.

Aponto as paredes rachadas, a tinta se descascando.

– Olha só, nem a casa está contente. Aliás, o lugar todo parece um cenário de horror. Aqueles bem trash mesmo, sabe?

Carl ri e vem até a cama para me abraçar. Ele sempre sorria. E sempre me abraçava, também.

– Eu sei – Se aconchega ao meu lado. – Só preciso de mais três dias, tudo bem?

– Okay – me rendo. – Você venceu no sorriso. Mais três dias, então – decreto: – E só.

Faço bico, séria.

– Obrigado. – Ele sorri e me beija.

***

Quarta-feira. 04:35 am. Seis dias na cidade.

Suada, começo a gritar por socorro.

Sei que estou sozinha na cama e que não há nada me segurando, mas é como se eu não estivesse totalmente consciente.

– CARL! Socorro, Carl!

Escuto meu marido batendo forte na porta do quarto. Não me lembro de tê-la trancado. Procuro despertar e levantar para destravar a porta, e simplesmente não consigo. Ordeno ao meu cérebro para abrir os olhos. Não posso.

De algum modo, ainda estou dormindo. Ou numa espécie de transe.

– Elisa, meu amor! – Carl continua a bater na porta. – Você está bem?!

O coração acelerado, o corpo quente. Então lembro-me que pelo menos eu posso gritar.

– Carl! Eu não sinto o meu corpo! Me ajuda! Me ajuda, Carl! Eu não sinto nada!

As porradas na porta, o medo na voz do meu marido, a situação, tudo me angustia e me deixa tonta. Sinto vontade de vomitar, mas não consigo me levantar para isso.

Ouço o barulho de madeira se partindo, como lenha. Acredito que Carl tenha usado o velho machado para quebrar a porta. Em seguida, ouço trincos se partindo e algo que parece ser a porta caindo no chão.

Os sentidos retornam ao meu corpo, o ar invade os meus pulmões com alívio e, finalmente, desperto do transe horrível. A visão se desembaça e, a minha frente, encontro um homem que não é o meu marido. Trazia uma voz mansa e perversa, quando falou:

– Oh. Elisa. Por que você trancou a porta, amor?

Ele ergue o machado até quase tocar o teto. E desce sobre a minha cabeça.

***

– Elisa? – uma voz sussurra. – Elisa, acorda.

É Carl. Ele me acorda, e é realmente o Carl. O Carl de verdade.

Estou de volta à cama, no mundo real, e meu marido está ao meu lado. A sua expressão preocupada me dá vontade de chorar.

– Elisa? – ele chama outra vez. – O que houve, meu amor?

O sonho foi tão nítido, tão real. Ele me abraça e eu sinto as lágrimas.

– Por favor – peço, soluçando.

– O que? – ele se aproxima para me olhar melhor. – O que foi?

– Eu só quero sair daqui logo.

E mais lágrimas caem.

– Por favor…

Ele me abraça forte, abafando o meu soluçar. Assim ficamos até o sol nascer pela janela, acordados.

***

Partimos da cidade na manhã daquela quarta-feira.

Ali, Carl estava tão assombrado quanto eu. Percebo isso quando vejo seu suspiro aliviado enquanto passarmos pela placa de “Volte Sempre” da cidade.

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2 comentários sobre “Sonhos Lúcidos #2 – Volte Sempre

    1. Por aí, Jorge. Rsr. Então, as histórias podem (ou não) ter pequenas conexões aqui e ali, costurando um mini universo, mas não são necessariamente uma série. Quero dizer, elas podem ser lidas e compreendidas independentemente do leitor conhecer ou não as outras.
      Enfim, espero que goste das próximas! 😀

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